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«Inferno» não é uma palavra bíblica. É uma tradução — e do quê?

setembro de 2026 · Alice Amorim

Quando lês «inferno» na tua Bíblia, estás a ler uma palavra que não corresponde a nenhuma palavra do original. É latina — infernus, «o que está por baixo» — e foi usada para traduzir três palavras bíblicas distintas, com significados muito diferentes entre si. Quem lê em português vê uma palavra onde os autores usaram três.

As três palavras escondidas atrás de "inferno"

Seol (hebraico, Antigo Testamento) — designa, de forma genérica, o mundo dos mortos. Não tem conotação de castigo; é o destino de todos, justos e injustos (Génesis 37:35, Salmo 89:48). É mais próximo de "sepultura" ou "além" do que de um lugar de tormento.

Hades (grego, usado na tradução grega do Antigo Testamento e no Novo Testamento) — equivalente grego de Seol. Na mitologia grega tinha conotações próprias, mas no uso bíblico é, na maior parte das vezes, simplesmente "o mundo dos mortos".

Geena (grego, usada por Jesus nos Evangelhos) — esta é diferente. O nome vem do hebraico Ge Hinnom, o "Vale de Hinom", um local real, fora de Jerusalém, associado historicamente a sacrifícios pagãos (2 Reis 23:10) e, mais tarde, a um lugar onde se queimava lixo. Quando Jesus usa esta imagem, está a evocar um local concreto e conhecido dos seus ouvintes — não a descrever, com detalhe geográfico, um plano metafísico.

Porque é que isto importa

Traduzir estas três palavras diferentes pela mesma palavra portuguesa — "inferno" — apaga distinções que os autores bíblicos claramente faziam. Misturar Seol (destino comum de todos os mortos) com Geena (uma imagem de juízo usada por Jesus) cria uma noção que nenhum dos textos, isoladamente, sustenta.

A imagem de um "inferno" com as características que a cultura popular lhe atribuiu — fogo eterno, diabos com forquilhas, uma geografia específica de tormento — deve mais a Dante e à arte medieval do que aos textos originais. Isto não significa que a Bíblia não fale de juízo, de consequência, ou de separação de Deus. Significa que a forma como se fala disso hoje, muitas vezes, já não é a forma como os textos originalmente falavam.

Uma nota, para que não fique mal entendido. Mostrar que a tradução simplificou não é mostrar que o assunto desapareceu. A Igreja ensina o inferno como uma realidade — um estado de separação definitiva de Deus, que resulta de uma recusa livre e persistente do seu amor, e que ninguém é predestinado a sofrer (Catecismo, 1033-1037). O que estas páginas questionam não é a doutrina: é a imagem. O fogo com forquilhas não é doutrina — é iconografia. E foi a iconografia, não o ensinamento, que assustou tanta gente.

Então, o que resta?

Resta um convite a ler com mais cuidado. As palavras que traduzimos por "inferno" descrevem coisas diferentes: o destino comum da morte, e uma imagem de juízo que Jesus usa deliberadamente, ligada a um lugar real. Confundi-las cria mais medo do que compreensão — e menos rigor do que os próprios textos pedem.

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